sábado, 23 de janeiro de 2016

Teatro: Rose, a doméstica do Brasil

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Hoje eu fui assistir à peça "Rose, A doméstica do Brasil" no teatro Dom Silvério. Ganhei o ingresso por conta da campanha de popularização do teatro aqui em Belo Horizonte. Bem, eu não sou muito de ir ao teatro, ainda prefiro ópera (por conta da música e da narrativa), e também por geralmente me decepcionar com a produção e história contada.

Dessa vez a decepção não foi com a produção (a visual, pelo menos, que estava impecável. Arrisco dizer que nisso foi 12738273 vezes melhor que as últimas óperas que assisti depois de Rigoletto), mas com o tipo de humor explorado.

Apesar de me indignar com uma coisa e outra, e me esforçar por monitorar minhas ações e palavras, quem me conhece sabe que não sou tipo que milita - nas redes sociais - por uma causa.

A peça hoje me provou uma coisa: Estou velha demais. E fiquei chata. Chatíssima, porque nas quase 2 horas de apresentação eu dei apenas 3 sorrisos. Desses, o último foi de alívio, ao ver o ator de volta a si, sem a peruca de cabelo crespo, sem os trejeitos na fala e sem o estereótipo forçado da empregada doméstica. Nessas 2 horas, derramei 9 lágrimas e engasguei algumas vezes, horrorizada.

Mas serei breve dessa vez. Não trarei sinopse ou contarei o enredo.
Contarei, porém, o que eu vi naquele palco.

Eu vi piada com deficiente mental. Vi o ator forçando a dificuldade das pessoas que têm paralisia cerebral para fazer humor. E vi as pessoas rindo disso.

Vi chamar homossexual de viado e sapatão, e o reforço do estereótipo do homossexual afeminado que têm o destino de trabalhar em salões de beleza - e as pessoas achando engraçadíssimo.

Vi clichês do tipo "todo homem trai" e piadas falocêntricas se multiplicarem.

Vi piada com evangélicos, mais de uma vez.

Vi a menina que estava ao meu lado, negra, que durante toda a peça estava rindo, ficar séria quando o ator fazia menção ao cabelo crespo.

Vi um trecho do filme Cinderela da Disney ser usado, bem como uma infinidade de músicas, para uma ação comercial. Talvez sem pagar os direitos de uso.

Vi todo tipo de preconceito linguístico ser usado como piada.

O ator, apesar de tudo isso, tinha um timing legal entre uma 'piada' e outra, e geralmente sabia usar a pausa a seu favor. Mas a repetência de algumas brincadeiras começava a deixar todo o espetáculo previsível. Quem estava engatado na risada aproveitava o gancho, mas, na terceira vez, o músculo da mandíbula já cansava, e o sorriso se desfazia.

Mas, o que me matou de verdade, foi a parte final, quando o ator começou a falar sobre a fome. Ainda na personagem, comentou como a fome era uma coisa terrível, como doía, como a mãe o mandava dormir quando menor para esquecer a fome, como, ao perceber que isso não funcionava, mandava os filhos rezarem para Ns. Aparecida na esperança de que a fome passasse e... as pessoas riam, se contorciam, engasgavam de rir.

Entendi que ninguém, naquele momento, havia passado fome alguma vez na vida.
Ninguém naquela sala havia tentado um dia dormir para a fome parar de doer, a cabeça parar de rodar, a pressão parar de cair e o estômago parar de soluçar na barriga.

A fome é a pior das dores que podemos sentir. É uma coisa que dói, que te suga, que cresce, que desampara, que te faz perder todas as esperanças e que não tem cura. A fome é aquela coisa que nos faz entender que, no final das contas, só nos resta chorar. E esperar. Esperar até que qualquer outra coisa aconteça e pare com o seu sofrimento. A fome faz entender que a morte é alívio, e te torna cético diante de qualquer possibilidade de sofrimento maior.

E as pessoas riam.

Como podiam rir disso, céus?!

Eu me senti tão desamparada, tão faminta, que só pude chorar. E fiquei assim até o final da peça, entre soluços e lágrimas presas aos olhos.

A idade já chegou e trouxe esse mau humor todo com ela.
Vou voltar para a ópera. A produção é mais pobre, o ingresso é mais caro, mas, pelo menos lá, eu nunca chorei de horror.